Carniceiros

O caso do anúncio das mães, publicado pela UCPel, foi a pauta da semana na cidade, no ciberespaço, no espaço sideral e em outros espaços e, pelo jeito, até mesmo entre os membros da equipe de desembarque de Heaven´s Gate. Isso tudo me fez pensar no tal ser humano, essa espécie bípede que diz ter um cérebro que parece servir para alguma coisa, como por exemplo, atrair-se pela desgraça alheia e até ficar excitado a ponto de tripudiar e ver o desgraçado minguar, se arrastar e obrigá-lo a escrever mil vezes e corretamente a palavra Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiotico, caso contrário, que seja apedrejado em praça pública. O grave erro ocorreu por uma sequência de incompetências, e não cabe aqui nomeá-las. E não há o que faça apagar uma mancha dessas, impressa num jornal de domingo de uma cidade do fim do mundo, principalmente quando essa mesma cidade está cheia de seres humanos absolutamente perfeitos que fizeram dela uma das mais modernas e desenvolvidas do país, com indústrias, um belo shopping center em frente à Receita Federal, uma cidade onde a miséria não existe e onde todos se lambuzam comendo, felizes, seus docinhos encantados no banco da maravilhosa praça, contemplando o belo casario construído pela mão escrava do charque. Aqui todos caminham olhando para trás, admirando seu próprio traseiro. Pavões modernos. Aqui, a grama do vizinho é muito mais feia que a minha. Voltando ao tal ser humano, a ele não interessa se o outro tem uma história de vida produtiva. Não mesmo. O que ficará para sempre é o deslize cometido. Como o goleiro que defendeu vários pênaltis decisivos, mas ficará marcado pelo frango que levou numa partida sem importância. Assim somos nós, os humanos, carniceiros de nós mesmos. Antropofágicos que adoram servirem-se da própria carniça numa bandeja de prata para saciar a fome de crueldade.
Escrito por Jairo S. às 12h13
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