Garbo varonil

Há exatamente um ano postei aqui um textinho sobre o tal 7 de Setembro, onde eu lembrava da musiquinha aquela “marcha soldado, cabeça de papel...” e dizia que nunca entendi porque na hora do incêndio do quartel deviam correr pra acudir a bandeira nacional e não os soldados. A dúvida persegue, mas tô aqui, eu e meus botões, a pensar na tal independência que se comemora hoje, com bandas nas ruas, arsenal bélico exibido com orgulho nas avenidas, crianças marchando perfiladas e cadenciadas. Não pretendo aqui lembrar que o Brasil ainda é dependente e tal, até porque seria um discurso-clichê e os argumentos ocupariam todo esse post. Quero mesmo é falar é dos elementos visuais e sonoros desse feriado, que tentam traduzir um sentimento de orgulho patriótico. No momento em que escrevo, ouço uma mistura de sons que vem da rua: dobrados das bandas, sirenes e businas. Sons entrecortados pela irritante campanha eleitoral e suas musiquinhas ridículas que tentam conquistar o voto com melodias fáceis e letras idiotas, num processo de total despolitização. “Somos independentes e livres...aqui temos democracia”, dizem os apressados em seus discursos vazios. Já o hino da independência diz que temos “garbo varonil”. Acho graça dessa expressão. O Brasil é “varão”, macho que não se dobrou e que agora desfila nas avenidas com suas franjas e pompas. Com seus canhões enferrujados e suas bazucas apontadas para uma assistência embasbacada e engasgada com o chimarrão. Tomam mate olhando as cores do desfile e ouvindo seus sons sem sequer saber o significado daquilo tudo. “Olha que lindo aquele canhãozinho, meu filho”, diz o pai orgulhoso do programa que arranjou pra família no feriado. E tome panfletos da campanha. As armas apresentadas pelos candidatos são tão inúteis quanto as que estão desfilando hoje. Os sons da campanha igualam-se aos dobrados das bandas. Eles, os políticos e os soldados, do lado de lá, desfilando orgulhosos. Nós, a assistência, do lado de cá, aplaudindo o circo. Amanhã vai ser outro dia. A banda passou, os políticos passarão e eu (pobre Quintana) passarinho a voar na imaginação desse blog sem palavras, num feriado de sol e frio, mateando e escrevendo bobagens. Brigado, D.Pedro, por mais um feriado.
Blog novo
Tem blog novo na área: a Milene entrou pro time dos blogueiros, e estreou em alto estilo. Espiem só: http://zereidade.blogspot.com
Escrito por Jairo S. às 10h44
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