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| Sexta-feira , 25 de Novembro |
Caetano ou Odair?

Sempre fui um consumidor de música chinela da boa. Explico o que vem a ser música chinela "da boa". Sou do tempo em que havia separação entre o "chinelo" e "qualidade". Hoje parece que essas duas coisas se confundem. Sou do tempo do elepê, então, o bom cantor chinelo tinha que ter uma capa de LP à altura. O bom cantor-compositor chinelo tinha que ter sentimento e fazer, com suas letras, o cara cortar os pulsos depois de beber todas. Hoje a chinelice não tem graça...é tudo produzido artificialmente (tipo Falcão). No tempo do Odair José, não. Era uma chinelagem pura, honesta até. O cara produziu letras memoráveis no submundo da música. Fez pérolas com esses títulos: Aceito o seu lado pior; Deixa essa vergonha de lado; Você e a praça ("...encostei o meu carro na praça, e você, um tanto sem graça, sorriu pra mim"); Eu, você e o sofá; Pare de tomar a pílula (verdadeiro clássico); Eu vou tirar você desse lugar (essa vou ser obrigado a reproduzir a letra na íntegra aí embaixo).
Houve um tempo que a minha diversão era sair com meu sogro, sábado de manhã, pra comprar discos chinelos nas lojas de Canguçu. Ríamos muito das capas e fazíamos um torneio pra ver quem conseguia o disco "chinelo dos chinelos".... E o Odair José sempre ganhava, apesar da concorrência acirrada com o Reginaldo Rossi (o original, dos anos 70, que mais tarde foi redescoberto pela mídia) e o Waldik Soriano com seu indefectível chapéu torto (Eu não sou cachorro não...). Tinha também o Amado Batista (esse vende muito até hoje) com sua eterna "Fruto do amor perfeito" ("...no hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via, você sofrendo a sorrir"). Bá...sofrendo a sorrir é o máximo.
Essa é a verdadeira cultura de massa, natural, original, pura. Viva o brega! Olhem que maravilha essa letra:
Eu vou tirar você deste lugar
Olha... A primeira vez que eu estive aqui Foi só pra me distrair Eu vim em busca do amor Olha.. Foi então que eu te conheci Naquela noite fria Em seus braços meus problemas esqueci Olha... A segunda vez que eu estive aqui Já não foi pra distrair Eu senti saudade de você Olha... Eu precisei do seu carinho Pois eu me sentia tão sozinho Já não podia mais lhe esquecer
Eu vou tirar você desse lugar Eu vou levar você pra ficar comigo E não interessa O que os outros vão pensar Eu vou tirar você desse lugar Eu vou levar você pra ficar comigo E não interessa O que os outros vão pensar
Eu sei... Que você tem medo de não dar certo Pensa que o passado vai estar sempre perto E que um dia eu posso me arrepender Eu quero Que você não pense nada triste Pois quando o amor existe Não existe tempo pra sofrer
Eu vou tirar você desse lugar Eu vou levar você pra ficar comigo E não interessa O que os outros vão pensar Eu vou tirar você desse lugar Eu vou levar você pra ficar comigo E não interessa O que os outros vão pensar Eu vou tirar você desse lugar
Escrito por Jairo S. às 20h22
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| Quarta-feira , 23 de Novembro |
xixi
"Como ele não tinha nada a fazer, foi fazer pipi. E depois ficou a zero mesmo. Ato contínuo, alerta que a vida tem dessas coisas, de vez em quando não sobra nada dentro da gente. Mas é bom prestar atenção porque isso só acontece enquanto se vive".
Clarice colocou isso na abertura de um continho – "Por enquanto" – e fiquei com essa frase na cabeça, martelando, martelando. 2005 foi um ano em que minha vida mijou, fiquei vazio mesmo...mas vivinho. Então, encaro como se houvesse uma drenagem corpórea, em que tudo foi expulso e agora preciso injetar coisas novas. Se faço bastante pipi, bom sinal. Mesmo quando não se tem nada para fazer, dá para sentir a tal vida pulsando, então quero mais é olhar o penico cheio das impurezas do corpo jogadas ali. Como diz a Clarice no mesmo livro, é a via crucis do corpo. Então, quero eu mesmo carregar meu corpo por aí, até o finzinho. Até o último "sopro de vida".
Escrito por Jairo S. às 10h59
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| Terça-feira , 22 de Novembro |
Olha a onda!

Os pagadores de promessa do Cassino (surfistas que andam de um lado pro outro na beira da praia com a prancha debaixo do braço à espera do milagre da transformação das tradicionais marolas em algo um pouco mais elevado para a prática do esporte) devem estar parafinando suas pranchas pra grande onde desta quarta. Dizem que tá uma piada a repercussão de um boato que ninguém sabe de onde saiu (como todo boato).
Mas, e se viesse mesmo a onda que, segundo o tal "vidente", tiraria Rio Grande e Pelotas do mapa? Hoje, então, seria o último dia de vida de algo em torno de meio milhão de pessoas do sul do sul do Brasil. E que fazer nesse último dia de vida? Na verdade essa pergunta-chavão já foi feita muitas vezes, e as respostas são sempre pouco criativas e pouco prováveis. Na hora H, ninguém cumpriria o que prometeu. Pânico. Essa é a palavra. Todo mundo em pânico, se houvesse a certeza da hacatombe. Basta uma autoridade ir à tv e pedir para que não entre em pânico, que todo mundo entraria em pânico na mesma hora. Como a tal onda ou o fim do mundo repentino é improvável e não passa de uma grande bobagem, as pessoas ficam fazendo elocubrações, cada um querendo ser o mais criativo possível para a grande despedida. Os puristas certamente diriam que sairiam pelas ruas pedindo desculpas a todos pelos erros cometidos, procurariam seus desafetos para abraçá-los, iriam à igreja se confessar, numa tentativa desesperada de receber um convite para ingressar no céu. Tem aqueles que, durante a vida se reprimiram tanto, que finalmente chegou a hora de se rebelar e fazer o que sempre tiveram vontade mas as convenções não permitiam. Tem aqueles que sempre fizeram besteira na vida, e agora, no momento capital, fariam uma besteira maior ainda (e torceriam para que o mundo acabasse mesmo).
Esse tipo de boato mobiliza as pessoas e vira motivo de piada. Em 2001, diziam que o mundo tinha data pra acabar: 21 de setembro (se não me engano a data era essa, mas não vem ao caso). Na verdade essa história já rendeu muito. Cientistas malucos já previram o fim do mundo. Outros ficam imaginando como seria tecnicamente isso (de que adiantaria?). Sem falar nos incontáveis filmes e livros que tratam do assunto. Acho que quando o mundo for acabar de verdade, deus apontará o dedo para o centro da terra, com o Galvão Bueno gritando desesperadamente: "Acabouuuuuuu....acabouuuuuu".
Na primeira metade do século passado houve o mesmo boato e um tal de Assis Valente fez uma música que sintetiza essa coisa do mundo terminar. Olha só:
Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar Por causa disso, minha gente lá de casa, começou a rezar E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada Por causa disso nessa noite. lá no morro, não se fez batucada
Acreditei nessa conversa mole Pensei que o mundo ia se acabar E fui tratando de me despedir E sem demora fui tratando de aproveitar Beijei a boca de quem não devia Peguei na mão de quem não conhecia Dancei um samba em traje de maiout E o tal do mundo não se acabou
Chamei um gajo com quem não me dava E perdoei a sua ingratidão E festejando o acontecimento Gastei com ele mais de um quinhentão Agora eu soube, que o gajo anda Dizendo coisa que não se passou E, vai ter barulho, e vai ter confusão Porque o mundo não se acabou
Escrito por Jairo S. às 08h44
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